Rumo ao Centenário do nascimento ao Céu de São José Allamano, os missionários e missionárias da Consolata escutam as palavras dele para para o caminho rumo à santidade. Hoje sobre a santidade e o espírito de família
“Era uma vez uma pequena aldeia escondida entre as montanhas, onde cada casa tinha o seu próprio jardim. Os habitantes sentiam grande orgulho nas suas flores – todas belas, mas diferentes: umas exalavam perfumes fortes, outras exibiam cores vivas, e outras cresciam em silêncio, sem chamar atenção. Com o passar do tempo, porém, as pessoas começaram a competir entre si. Cada uma queria mostrar que o seu jardim era o mais bonito. Uns gabavam-se das rosas, outros dos lírios, e logo as conversas se transformaram em discussões. O vento deixou de soprar na aldeia – e a terra começou a secar. Ao perceber o que estava a acontecer, o sábio da aldeia pediu a cada um uma semente do seu jardim. Juntou-as todas na sua bolsa e, na praça central, construiu um pequeno canteiro onde plantou as sementes misturadas.
Convocou todos os vizinhos e, reunidos na praça, disse: “Se cada um trouxer um pouco da sua água e do seu cuidado, esta terra voltará a florescer.” Alguns riram, outros duvidaram. Mas, aos poucos, um trouxe água, outro um punhado de terra boa, outro fez sombra com um pano… Em pouco tempo, as sementes romperam a terra e, diante dos olhos de todos, nasceu um jardim repleto de flores coloridas e diferentes. O vento voltou a soprar na aldeia, e o novo jardim, cuidado por todos, passou a atrair visitantes de longe.”
Esta parábola é um espelho do que acontece quando o amor próprio cresce mais do que o amor comum. Cada casa tinha o seu jardim, assim como cada pessoa possui os seus dons, talentos e modos únicos de servir. No princípio, reinava a harmonia; mas quando o olhar se voltou da partilha para a comparação, o vento – símbolo do Espírito – deixou de soprar.
O homem sábio parece-se com S. José Allamano, quando deu vida aos Institutos Missionários. Ele acreditava que o verdadeiro jardim floresce quando cada um oferece o que tem: um pouco de água, um punhado de terra, um gesto simples de cuidado e amor.
Assim nasce o espírito de família: quando deixamos o “meu” para abraçar o “nosso”, quando compreendemos que a beleza da Missão não está em brilhar sozinhos, mas em florescer juntos, sustentados pelo mesmo Espírito e enraizados no mesmo ideal missionário.
S. José Allamano compreendeu que a força da Missão não está apenas no zelo individual, mas sobretudo na comunhão. Ele dizia com clareza:
“O Instituto é uma família; deveis viver como verdadeiros irmãos. sois todos irmãos e tendes que vos preparar para viverdes juntos e depois trabalhardes juntos por toda a vida. Devemos ter um espírito de corpo ao ponto de dar a vida uns pelos outros.”
Na sua espiritualidade, a fraternidade não é um sentimento vago, mas uma forma concreta de viver o Evangelho. A vida comunitária é o primeiro campo de missão pois é ali que se aprende a amar, a escutar, a servir e a perdoar.
O espírito de família é um dom e uma tarefa: nasce do Espírito Santo, mas cresce no compromisso diário de acolher, partilhar e caminhar juntos. Quando vivemos unidos, a nossa diversidade torna-se riqueza e a missão torna-se comunhão. Cada gesto simples – um sorriso, uma escuta, uma mão estendida – é uma semente lançada nesse grande jardim que é a Família da Consolata:
“Caminhai juntos, sempre unidos, e o Senhor abençoará todas as vossas obras.”
Assim, o espírito de família não é apenas um ideal a admirar, mas uma realidade a construir dia após dia com humildade, paciência e alegria. É o modo de viver e anunciar o Evangelho que Allamano sonhou: uma missão feita de corações que se reconhecem irmãos e caminham lado a lado.
Os fundamentos essenciais para cultivar este espírito de família propostos por S. Allamano são práticas e atitudes que tornam a comunidade viva e missionária:
Caridade Fraterna – A caridade é o primeiro sinal de que Deus habita entre nós e S. Allamano insistia muito que a fraternidade se manifesta em gestos simples de respeito, perdão e apoio mútuo:
“Devemos amar-nos como verdadeiros irmãos; onde há caridade, aí está Deus.”
Unidade e Comunhão – A união é o bem mais precioso de uma comunidade pois sem unidade, não há missão que resista; com ela, tudo floresce: “A união é o primeiro bem que uma comunidade religiosa pode ter. Ai de quem a destrói!” “Todos devemos formar um só coração e uma só alma.” Esta comunhão reflete o modelo das primeiras comunidades cristãs, onde a missão nascia da fraternidade.
Simplicidade e Sinceridade nas Relações – S. Allamano desejava que todos vivessem num ambiente simples, transparente e verdadeiro sem máscaras nem formalismos:
“A simplicidade é o caminho da paz; onde há simplicidade, há sinceridade e confiança.”
Viver na verdade é viver com liberdade interior: cada um pode ser ele mesmo, com humildade e confiança.
Obediência e Respeito Mútuo – O espírito de família inclui o respeito pelos irmãos e pelos superiores, não por obrigação, mas por amor. A obediência, para Allamano, devia nascer da fé e do desejo de colaborar pelo bem comum:
“A obediência deve ser cheia de amor, como numa boa família cristã.”
Obedecer e respeitar é reconhecer no outro a presença de Deus que guia e sustenta o caminho comunitário.
Participação e Corresponsabilidade – Allamano insistia que todos deviam sentir-se corresponsáveis pela vida e pela missão do Instituto, partilhando alegrias e dificuldades:
“Cada um faça a sua parte; todos juntos formamos um só corpo para a glória de Deus.”
Quando cada um oferece o melhor de si, a comunidade torna-se um corpo vivo, forte e fecundo.
Alegria e bom humor – A alegria é o perfume da caridade. Para Allamano, o bom humor e o espírito positivo eram sinais de um coração em paz com Deus e com os irmãos:
“Onde há alegria, há o Espírito do Senhor.” “Sede alegres no Senhor; um coração contente é um coração que ama.”
A alegria comunitária é uma forma silenciosa de evangelização.
Devoção à Consolata – No centro de tudo, S. Allamano colocava Maria, a Consolata, Mãe e modelo de toda a família missionária:
“Tende grande devoção à Consolata; Ela é nossa Mãe, a nossa Consolação.”
A presença da Consolata unifica, consola e inspira: ela ensina-nos a viver como irmãos e irmãs, guardando tudo no coração e confiando sempre em Deus.
O espírito de família, como o jardim da parábola, é fruto de muitas mãos e de um mesmo coração. Cada semente que lançamos – um gesto de perdão, um sorriso, uma palavra de encorajamento – torna-se sinal visível do amor de Deus que habita entre nós. Quando vivemos segundo este espírito, deixamos de ser apenas indivíduos reunidos por um ideal e tornamo-nos verdadeira família missionária, unida pelo Espírito e pela Consolata, Mãe e modelo de comunhão. Não é a perfeição que nos torna irmãos, mas a decisão de caminhar juntos, de cuidar uns dos outros e de permanecer fiéis ao mesmo sonho: levar a Consolação de Deus até aos confins da terra. Que o vento do Espírito continue a soprar sobre o nosso jardim comum, renovando a terra com a sua graça, para que cada flor
– cada vocação, cada missão, cada coração – possa florescer em plenitude.
Para a reflexão pessoal
- Que “jardim” tenho cultivado na minha vida e na minha comunidade?
- Quais são as atitudes, gestos ou relações que talvez tenham “secado” e precisam ser regadas para que o “vento do Espírito” possa soprar na minha vida?
- Como posso contribuir para o espírito de família sonhado por S. José Allamano?






